sábado, 26 de novembro de 2011
Veleidades ritualísticas
“É este o punhal?” – disse a sacerdotisa,
E eu, examinando-o com atenção, assenti.
“Não é como eu imaginava, mas irá servir”,
E, me servindo de suco de tomate, sorri.
“Você não é o primeiro que o procura.
Outros chegaram até a esse ponto,
Mas desistiram, coitados, ao perceberem
Que não há botão de pause no ritual”.
Passando lentamente a lâmina em minha pele,
Sentindo-a descascar os poros arrepiados,
Perguntei seu nome. “Não interessa”, ela disse,
“nomes aqui não têm o menor poder”.
- Ao menos já fizeste isto antes?
“Não, mas fui preparada desde que nasci,
E conheço cada infinito segundo, cada fresta
Que se abrirá no véu de Ísis após o debut.”
Passei a língua no aço frio do punhal
Para sentir o doce amargo de meu sangue.
- E tal instrumento já foi utilizado alguma vez?
“Muitas, e por homens melhores que você”.
Deitei-me nu na pedra lisa pelo uso e manchada
Da ara sagrada erguida no meio do salão escuro.
“Estou pronto” – balbuciei, ainda vacilante –
“Faça a sua mágica, filha dos tempos”.
Senti o calor de suas coxas quando a vestal
Sentou-se por cima de meus quadris.
Vi ainda refletir a luz das velas no punhal em sua mão,
E ela sussurrou palavras que nunca lembrarei.
Se o ritual deu certo, não sei.
O manto me serve muito bem aos ombros,
E o título me abre muitas portas
- Mesmo não sabendo se ele me convém.
Trago em minha carne nua as runas,
Gravadas pelo aço em lágrimas e pela dor.
Estou pronto para assumir o meu papel,
Sob os auspícios gloriosos da Verdade.
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1 clientes:
Nao posso mais dizer que li. Assisti as imagens que se projetaram na minha mente graças as suas palavras.
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