segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Obrigado, São Fidélis



Através dos vidros da Fiat 147,
Os olhos curiosos das duas crianças
Viam se recriarem as sombras da velha cidade.
As árvores, o cemitério, as casas coloniais,
As bicicletas e galões metálicos de leite,
Quando de repente surgia, à direita,
O imponente e ruidoso Paraíba,
Emoldurado quase sempre pela alvorada.

Era a cidade-poema que se descortinava,
Com a promessa de joelhos ralados, goiabas,
Sorrisos inesgotáveis e relógio sem corda.
Ali, o pequeno poeta bebia da inesgotável fonte,
E deixava impressa em sua alma o sentimento
E a dádiva de traduzir o mundo em palavras.
Naqueles paralelepípedos, na velha praça da matriz,
O barro se moldava aos poucos e se tornava homem.

Meu pai, o filho do vendedor de querosene,
Usava um bigode de próspero homem de negócios,
Filho da terra que partira para os outros domínios,
Dos braços do santo advogado dos pobres,
Para as notas distantes do santo violeiro.
O pequeno jornaleiro, a pipoca na praça
- que ainda hoje tem pedaços de queijo! –
E a alegria infinita que só São Fidélis me dava.

Sobre o caudaloso Paraíba e suas piabas,
Flutuava a ponte metálica, cuja rica história
Iluminava meus sonhos de infante tanto quanto
O lumen alaranjado que à noite surgia do rio.
A ponte, onde se sagrava o rito de passagem,
De onde os valentes homens de minha família
Pulavam para se tornarem homens de verdade!
- Pelo menos assim me contaram, eu nunca pulei.

E quando, ao fim das férias, partia a 147,
Carregada de mangas e gaiolas de passarinho,
Fazendo escala no Norte antes de seguir viagem.
Dormíamos, eu e meu irmão, no banco de trás,
Sonhando com o próximo dia em que veríamos de novo
O rio, a praça, a igreja, a vida extraordinária,
Inebriados com o poema que era – e é! - a cidade.
Obrigado, São Fidélis. Saudades, meu pai.

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