sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um gol de pai pra filho


Meu pai não era um cara muito carinhoso. Amoroso sim, carinhoso não, talvez por sua criação dura e objetiva, na roça – por roceiros - ele demonstrava seu amor com outros gestos, mas raramente por abraços e beijos (lembro-me de seu constrangimento quando eu, já adulto, o beijava e dizia “eu te amo”). As primeiras referências apaixonadas que tenho de meu pai era pelo Flamengo. Brigas, xingamentos, êxtase, euforia. Não me lembro do jogo da final do Mundial de 81 (revi há dois anos, e torci como se não soubesse o resultado), mas me lembro de meu pai eufórico, bêbado, alegre. O patrão de meu pai no escritório era tricolor, e tinha uma cadeira cativa no Maracanã – que usávamos lautamente, exceto em Fla-Flus. Além do fato de lembrar de vários Flamengo x América x Bangu x Vasco, o time das Laranjeiras para mim sempre representou o poder opressivo da burguesia, do “rico”, mas isso é outra história...

1987 foi um ano complicado para este pequeno infante. A pressão psicológica exercida por minha mãe no período pós-separação (isso hoje é chamado de Alienação Parental) fez com que eu odiasse meu pai. Claro, não odiei meu pai em momento nenhum, apenas mimetizei os sentimentos que minha mãe exalava, de frustração de um casamento derrotado com dois filhos pra criar. Mas esse momento de proatividade sentimental maldirecionada fez com que eu negasse os símbolos que representavam meu pai, e um deles foi o Flamengo. Conduzido por minhas tias – que apoiaram minha mãe nesse ocaso – decidi que simpatizava justamente pelo algoz, o Fluminense (agradeço às circunstâncias – e à clássica leniência feminina com o esporte bretão – por não ter foto alguma com este uniforme abjeto). Torcer pelo Fluminense era apenas uma forma de somar ao coro descontente da viúva de marido vivo e eu, sempre querendo apoiar, repetia a ladainha. Até o gol de Renato Gaúcho.

Semifinal da Copa União, eu vejo Renato Gaúcho partir quase do meio campo e decidir o jogo que nos levaria à final – e ao campeonato brasileiro de 1987. Os olhos brilhando, o bigode molhado de cerveja e os putaqueparius do meu pai haviam criado raízes mais profundas que um coração partido. Naquele gol, naquele exato momento, tudo era menor: Flamengo omnia vincit. Só fui me encontrar novamente com meu pai algum tempo depois, e digo que a sensação de vê-lo foi a mesma (alienação parental, afastamento dos filhos) que tive naquele gol de Renato Gaúcho. Tudo daria certo novamente, o seu amor personificado descia do trem (ou subia as escadas do Bloco 5 do Alcântara II, outra história pra outro dia) e fazia sua alma crer (em um tempo em que eu ainda cria ter alma) que algumas coisas são simplesmente para sempre.

Na véspera de sua morte, o Flamengo jogara contra o  Remo pela Copa do Brasil, e metera um 4X0. Eu comprei o jornal na manhã seguinte para levar ao hospital, sabia que ia deixá-lo feliz. Não deu, a hora chegou, partiu antes. E cada vez que comemoro um gol do Flamengo, eu digo eu te amo, meu pai. Você me deixou muitas coisas, mas talvez essa seja uma daquelas que você teria mais orgulho.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Empanturrado com migalhas

Programas como “The Voice” expõem o papel ridículo que a Arte ocupa em nossa maldita sociedade de consumo. Submetida – à força, à falsa, a fórceps – a uma padronização escrota, uma manadização que não perdoa ninguém que levante os cornos acima, cria a falsa sensação de que essa gente bronzeada e chique que atribui a si própria a alcunha de “sociedade” é inteligente. E culta.
Povo ali canta bem? Canta, não estou falando isso. O problema é que, além do fato de ter que se expor ao julgamento de “exponentes” da MPB (Ironia, sempre. Deve ser uma puta dor de corno ter o seu belcanto julgado por... Claudia Leitte? Da-ni-el?), o seu brilho encontra limites definidos e atados: não faça diferente. O diferente não é aceito aqui. O diferente não VENDE.
A função da Arte não é vender. Não é encher prateleiras. Não é ser especial de Natal da Globo. O novelista polonês Witold Gombrowicz gravou na eternidade palavras que sempre me vêm à mente quando me encontro com essa Arte “fraquinha”: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados”. Taí, nada mais a acrescentar. Quando você começa a ditar “padrões” baseados em RENTABILIDADE e MERCADO, você mata justamente essa Arte da qual fala o Gombrowicz, chamada de “Alta Cultura”. Não é “Alta” por ser melhor, mas justamente por pairar acima de convenções sociais e temporais (principalmente). A padronização emburrece o público, dando-lhe a impressão de uma intelectualidade e “cultura” que não possui, enchendo barriga com migalhas. Exclui o artista que labora e poetiza sobre o que não se vende, o que não se vê, o que não se fala – mas é imperioso que se traga à tona. O artista também precisa sobreviver, e assim vão o músico, o escritor, o pintor, o ator e toda essa gama de excluídos ontologicamente tentarem se encaixar (encaixar = entrar na CAIXA – porra, etimologia é lindo demais!) nos fetiches do mercado.
Aí eu falo isso, e sou o louco de São Gonçalo, o revoltadinho que ataca o sistema porque não foi chamado para fazer parte do clubinho. Nem é. O peruano vencedor do Nobel de Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa, lançou um livro em 2013 em que fala isso. "A arte, a literatura e o cinema se trivializaram de tal maneira, que o espectador e o leitor vivem a ilusão de ser cultos e de estar na vanguarda de tudo com o mínimo esforço intelectual". E olha que ele tem passe VIP pro clubinho, hein?
Então... Nunca a cultura e o entretenimento estiveram tão promiscuamente enredados. Mas a Arte não pode se dar apenas ao papel de entreter, ela é muito mais importante que isso. O problema não é escutar música ruim, é SÓ escutar música ruim. Não é que o cara vá pra balada ouvir Vivaldi, mas se ao deitar a cabeça no travesseiro para pensar em sua própria vida ele coloca na Mix, bom... Tem alguma coisa errada aí. O problema não é o “The Voice” (Chacrinha Bolinha Raul Gil Silvio Santos – quantos outros já fizeram programa de calouros?), é a sociedade tomar a grade de programação da Globo como cânon da cultura, desprezando o que não está no “padrão” e se achando o máximo com isso.
E leiam Vargas Llosa, qualquer coisa. Pantaleão e as Visitadoras, Menina má, Tia Julita... O cara SABE o que diz. Inclusive, ajuda: há um livro dele chamado “Cartas a um Jovem Escritor” que é imprescindível a qualquer biote como eu que se pretende a rabiscar palavras e tocar corações alheios.

Rodrigo Santos

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Autogroselha

Algumas coisas deixam entrever o rascunho que sou, sem me definir, mas por elas sou julgado, condenado e executado à revelia, seguindo a cartilha de cavalo de 7 de Setembro: cagando, andando e sendo ovacionado.
Não gosto de Clarice Lispector. Acho uma bosta, chato mesmo, literatura pseudofilosófica do maravilhoso não-entendimento niilista que tanto encanta os wannabes. Clarice usava metáforas vazias de sentido, historinhas chatas e mimimi feminista eterno. Não julgo nenhum autor por um livro, mesmo bons autores podem escrever um livro fraco. Leio pelo menos três obras, e os três livros de Clarice que li são ruins.
Acho Legião Urbana um saco. Bandinha ruim, instrumental pré-escolar e letras que caem na mesma parvoíce acima. Quando fazem sentido são ruins, quando não fazem encantam os tolos. “Não faço ideia do que o Renato quis dizer aqui, mas parece alguma coisa sublime”. E olha que eu já estou nas fronteiras dos 40, fiquei exposto a essa merda durante minha formação enquanto ser humano (loading, ainda). Aproveito o ensejo para dizer às crianças que o tal movimento de B´Rock, o Rock Brasileiro dos anos 80 nunca existiu, é uma classificação kidult de gente saudosista. As bandas que perseveraram no rock durante os anos 90 foram poucas – e nem foram as melhores (Ira, por exemplo). Paulo Ricardo virou José Augusto, Paralamas virou Buena Vista Social Club Fake, Dinho estava chapado demais para perceber que a década havia mudado. Agora fica todo mundo pagando de roqueiro, mas é mentira, viu? By the way, não existe rock brasileiro no mainstream, ponto.
(Um parêntese para o parágrafo acima: quando eu cresci a moda eram festas dos anos 60, essa tendência é cíclica e eu tenho medo de quando vocês crescerem a moda for revival dos anos 10. Naldo bombando com uísque e água de coco e o casal de meia idade: “Amor, estão tocando a nossa música! Que romântico!”; “Ah, se tocar Quadradinho eu choro!”)
80% das pessoas que comem comida japonesa não gostam dessa porcaria, só comem porque parece coisa de rico. Eu me considero um animal perfeito (ser humano não. Legal é que para ser lagartixa é só nascer lagartixa, mas para ser humano não basta apenas nascer humano.): como qualquer coisa, durmo de qualquer jeito (e em qualquer lugar) e não tenho problemas de excreção, mas acho comida japonesa um troço insosso que não enche barriga. Tudo tem o mesmo gosto e consistência, daí você enche de pasta verde dar uma dixavada (Word reclamou aqui. “Dixavar” ainda não está dicionarizado? Deveria.). Na verdade esses 80% comem mais pelo ritual, pelo exotismo das tigelinhas, água preta e pauzinhos. É uma forma de dizer: “Olha, eu sei comer assim!” Queria ver era esse povo comendo caranguejo em Itamaracá, com caldo preto escorrendo pelo cotovelo, isso é expertise.
Não gosto de gatos, nem de Almodóvar. Acho essa tal de “modéstia” hipocrisia para ganhar elogio. Não tenho saco para filmes de países sem saneamento básico, e faço um esforço hercúleo para gostar de jazz instrumental e virar um velho erudito, mas acho futebol sem gol, fica só na firula e no pé-pé.
Agora vocês podem me odiar com propriedade. Mas lembrem-se de que gosto CONTA, e é importante. Ah, tá, e do cavalo de 7 de Setembro, lembrem-se do cavalo...


Rodrigo Santos