domingo, 5 de abril de 2015

Mesmo um relógio quebrado


Sempre fui arrogante. Um efeito colateral compreensível quando se cresce ignorado e a necessidade de cavar seu lugar no mundo se faz imperiosa, passando pela busca incessante da excelência. Cheguei à idade adulta ainda portando tal chaga, mas tive o privilégio de ser escolhido por uma profissão nobre desde os tempos imemoriais, a de xátria, soldado. Servindo à Marinha, fui obrigado a conviver com os mais variados tipos de seres humanos, excelentes cada um em seu pequeno universo particular. E lá, rompendo os pélagos, após um episódio de altivez desmedida e verborrágica (desses ainda tenho, allors), um cara que se tornou um grande amigo (brother in arms) me disse a seguinte frase: “Não subestime ninguém, nunca. Até mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia”.

Ah, o poder das pequenas epifanias. Frases como essa sempre me atingiram em cheio, com o impacto de doze cintras e um prato de calabresa. A partir daí, iniciei uma peregrinação pelas sendas do amor incondicional pelo ser humano. Quebrado, imperfeito, sublime mesmo em seus defeitos. Por que iniciei essa crônica – que é pra ser sobre futebol, meu editor é implacável com minhas digressões – falando isso? Ah, tá, lembrei.

Nós, amantes do futebol, crescemos acostumados ao estereótipo do jogador burro. Desde as piadas do “Ah, a gente fazemos o que podemos (sic)”, até as lendas de Nunes e o presidente corintiano Vicente Matheus. O que se espera do atleta é que corra, marque e faça gol, não filosofia. Daí um dia, assistindo a mais um embate do Mais Querido, o zagueiro Samir, garoto bom de bola, é abordado pelo repórter televisivo após o jogo e diz, na minha cara, na minha sala: “Eu tenho que fazer o meu melhor, independente do adversário. Afinal, esta é a minha profissão, é dela que tiro o meu sustento e o de minha família, não posso fazer diferente”.

Chorei com um ninja silencioso. Nada de jogadores com bagagem de leitura (como o também zagueiro Wallace, que em breve abrirá um blog com resenhas literárias), ou diplomas acadêmicos (DOUTOR Sócrates, que nunca seja esquecido!), mas as palavras simples e contundentes de um menino que finalmente vê seu sonho se materializar em grama. Trabalhamos todos os dias ao lado de pessoas frustradas (a frustração tem mais pouso que a felicidade no ser humano hodierno), que descontam em tudo e em todos. O homem ocidental não consegue associar o trabalho à vida, parece que a vida dá pause enquanto se labora (o oriental destoa lindamente dessa praxis), e em um país como o nosso, de tradição escravagista, é ainda pior: achamos que o trabalho é sofrimento, coisa de seres “menores”, indignos. Daí um ZAGUEIRO de futebol mete a cara na TV e te ensina: você tira teu sustento dali, e tem que fazer o seu melhor. Não há opção. Não interessa se o patrão não gosta de você, se aquilo que você faz passa longe do que você sonhou. O pão da tua mesa sai daí, e se não gosta, saia também. Não abrace a mediocridade. Se até mesmo um zagueiro de futebol – promissor até, mas nenhum craque ainda – consegue ver isso, você também pode.

Imediatamente ,linkei essa epifania com outra, quando vi um adesivo no cockpit de um ônibus que dizia: “Sua meta é ser o melhor no que faz. Não há alternativas”. Aquele motorista não queria ser um engenheiro, ou um corretor de seguros. Queria ser o melhor MOTORISTA, porque é disso que ele vive. Samir quer ser o melhor zagueiro, representar a seleção, ser campeão do mundo. Quem não quer? Mas ele joga – e joga mesmo, o danado – cada jogo como se fosse único, dando o seu melhor.


E você? 


* Galera que está vindo aqui porque o próprio Samir compartilhou o texto em seu facebook (Obrigado, meu caro, e boa sorte no novo time!), aproveita e clica pra ler outros contos no blog. A casa agradece. :)

Um comentário:

Fernando Pitanga disse...


Momento raro de lucidez e amadurecimento vindo de um jovem boleiro. Ele poderia estar deslumbrado com carros, marias chuteiras, amigos pagodeiros ou congêneres mas foi assertivamente incisivo. Ponto para o jogador, três pontos para escritor por captar a essência de uma frase que fatalmente ficaria perdida no microfone de um repórter de campo.